Jussara Lucena, escritora

Textos

Ribeirão Grande

Quando cheguei o sol se punha, enchendo de tons vermelhos o horizonte, acentuando o contorno das colinas e das araucárias que sobreviveram ao tempo e a cobiça dos homens. Na minha infância eram elas que determinavam tais contornos, um mar de pinheiros e grandes árvores. Agora aparecem lindas, porém isoladas em meio a vegetação baixa e as áreas de agricultura. Me sinto feliz, pois começaram a ressurgir depois de um longo tempo. Pena que não recomeçamos antes, não preservamos um pouco mais.

Saí da autoestrada e busquei um caminho alternativo pela área rural. Abri a janela do carro e deixei a brisa entrar. O cheiro da mata é uma coisa incrível! Comecei a espirrar, não me importei. O pólen das plantas irritou o meu nariz, castigado pela poluição da cidade grande. Porém sentir o pólen é reconfortante, pois é sinal de renovação.

Me surpreendi quando passei pela velha encruzilhada. Lá estava a mesma bodega, construída em tábuas largas de imbuia, sem pintura e com a fraca lâmpada incandescente pendurada num bocal de porcelana. Será que o velho Chico ainda vive? Estaria beirando os noventa anos. Estacionei e entrei. Atrás do balcão, um homem com aproximadamente quarenta anos passava um café num coador de pano. O aroma era inebriante, eu já podia sentir o sabor, o gosto da infância.

- Boa noite!
- Boa noite! Em que posso ajudar o amigo? – respondeu o sujeito.
- O Chico ainda anda por aí?
- Qual deles, o neto, o pai ou o avô? Se for o neto, sou eu mesmo.
- Aquele que procuro fazia um sanduíche de queijo quente com linguiça que a dona Maria mesmo produzia a partir do leite das vaquinhas e da porcada que criava nos fundos de casa.
- Pois olhe, moço, a Dona Maria, que Deus a tenha, não está mais por aqui. Mas os netos dela continuam cuidando da bicharada. Ainda precisamos diferenciar qual dos Chicos o senhor procura.
- Meu caro, pelas manchas que ganhei em minha mão, dever ser o mais velho.
- Chiquinho! Vai lá atrás ver onde seu bisavô está! – Gritou o Chico do balcão para um garotinho de uns doze anos que segurava uma velha bola nas mãos e tinha o pé todo sujo da terra preta da região.
- Pelo jeito o campo do Pé-sujo ainda existe! – Sugeri.
- Claro! É a tradição.
- E o time do Pé-sujo, ainda se chama Vasco da Gama?
- Não me diga que o senhor jogava pelo Grêmio?
- Eu era lateral esquerdo e pela lógica, marcava o seu pai. Só nunca soube que ele se chamava Chico também. Eu o conhecia como Tatú.
- Isso mesmo, Chico Tatú.
- Deveria ser Chico Preá, ele era muito rápido.
- Era, hoje o joelho mal deixa ele caminhar.
- O mesmo faz a minha barriga comigo.
- Dá para perceber, mal entrou e já pediu comida!
Não tive outra reação a ser dar uma gargalhada.
- E o Tatú, está?
- Não, viajando. Foi conhecer o mar. Era o sonho dele. Quer mesmo o sanduíche? Se quer vou esquentar a chapa.
- Claro que quero! Faça logo dois e me adiante um copo com um pouco deste café.
Me debrucei na janela sem vidros, empurrei as folhas dela para melhorar a amplitude da visão. Caminhando lentamente vinha o velho Chico. Parecia ter a metade do tamanho de quando o vi pela última vez. Chapéu de palha na cabeça, chinelo de couro nos pés. O neto o puxava pela mão e ele freava o menino.
- Boa noite!
- Boa noite, Seu Chico!
- Eu conheço o senhor?
- Talvez não lembre, faz tempo que não nos vemos. Eu sou o José Carlos, filho do Antônio da farmácia.
- Juquinha! Você cresceu, para os lados. Acho que você dobrou de tamanho! Me lembro que você não podia sair de casa em dia de ventania - gargalhou o velho senhor.
- Pois é, Seu Chico, o tempo muda as pessoas.
- Não só as pessoas, meu filho. Olhe em volta. Temos um ou outro pinheiro. Você lembra do dia em que seu pai conseguiu um caminhão emprestado e fomos catar pinhão?
- Lembro. Nunca vi tanta pinha na minha vida. O caminhão vinha espalhando pinhão pela estrada de tão cheio. Distribuímos para muita gente do bairro.
- Pois, hoje em dia, mal temos pinhão para uma sapecada. As gralhas, coitadas, são poucas e assim mesmo não há o suficiente para elas.
- É realmente uma pena. E o senhor ainda pesca?
- Está difícil para enxergar o anzol. Mas assim mesmo é mais fácil do que achar peixes no rio. Está todo assoreado e poluído. Só vou para a barranca para lembrar dos bons tempos. Sei que você e os outros meninos conheciam a minha ceva e me “roubavam” alguns peixinhos.
- Coisa de garoto, Seu Chico. Também me lembro que foi o senhor que nos ensinou a pescar.
- Tudo mudou muito. Só tem um lugar aqui que parece ter parado no tempo e ainda preserva os pinheirais e uma água corrente limpa e cheia de peixes. Você lembra da Laurinha?
- Sim, me lembro.
- Pois ela preservou o sítio do pai. Cuida dele como ninguém.
- Mas o marido dela era um sujeito que não gostava muito da vida no campo.
- Ela cuida sozinha, o tal sujeito sumiu no mundo.
A conversa foi interrompida pelo Chico do balcão que me trouxe o sanduíche e pelo cachorro que passou correndo em meio as pernas do velho Chico, quase o derrubando. Segurei-o pelo braço.
- Vejo que o vô reconheceu o senhor.
- Estamos relembrando o passado, os meus tempos de menino. Não é Seu Chico?
- Eu conheço o senhor? – me perguntou o velho Chico.
- Não liga não, moço – me disse o Chico do balcão – ele lembra tudo do passado, adoeceu e agora esquece o que aconteceu alguns segundos atrás.
- Eu sou o José Carlos, filho do Antônio da farmácia, Seu Chico.
- Juquinha! Você cresceu, para os lados. Me lembro que você não podia sair de casa em dia de ventania – repetiu as risadas o velho senhor.

Eu lhe dei um abraço e o convidei para dividir o lanche comigo. A mulher do Chico do balcão o puxou pelo braço e lhe disse que estava na hora do banho. Ele resmungou um pouco e se foi.

Fiz minha refeição. Agradeci ao Chico do balcão. Antes de sair, dei ao Chiquinho dinheiro para uma bola nova:
- Só não diz para o pessoal do Vasco da Gama que foi alguém do Grêmio que deu o dinheiro! – recomendei.

Ele apenas sorriu, timidamente.

No carro, peguei a direção da cidade. Estava de volta a autopista, quando pensei melhor. Tomei o caminho do Sítio Ribeirão Grande.

Laura, a Laurinha havia sido um amor de infância e adolescência, muito embora o sentimento me parecesse unilateral. A garota inteligente que tirava as melhores notas na escola e olhava os meninos de cima, não por arrogância, mas por estar sempre um passo à frente nas discussões. Ela parecia muito mais madura que todo o resto da turma. Havia muitos garotos apaixonados por ela. Como é natural, se interessou por um rapaz mais velho, filho de um juiz que cumpriu sua missão por algum tempo na cidade. Eu soube que casaram alguns anos mais tarde.

Me lembro bem do jardim da casa dela. Não era muito grande, mas possuía uma variedade de plantas e flores. Acho que era o lugar do bairro aonde havia a maior concentração de borboletas, das mais variadas cores e formas. Elas disputavam espaço com as abelhas que, como elas, vinham em busca do néctar. Havia também muitos beija-flores, que nos encantavam com o brilho de suas penas ao sol. Por sua variedade, o jardim passava a maior parte do ano florido. Laurinha ajudava a mãe a cultiva-lo, adorava aspirar o perfume das flores. Algumas de nossas brincadeiras aconteciam lá também.

Certa vez, tentando agradar a Laurinha, roubei uma bela rosa do jardim da dona Abigail, tirei os espinhos, arranquei as pétalas externas para melhorar a aparência e levei para ela. Foi uma péssima ideia. Sorridente, ofereci-lhe a flor. Sem pestanejar ela despejou: “Você a matou! As flores, as plantas, tudo o que há na natureza foi feito para ser contemplado. Agora a beleza e o perfume dela durarão por pouco tempo e poucos poderão admirá-la”. Nunca mais me arrisquei em tentar dizer para Laurinha o que eu sentia. Depois disso, passei a ver a natureza de outra maneira.

Parei em frente a porteira do Ribeirão Grande. Uma enorme lua cheia, apontava no horizonte, numa noite de céu estrelado. Pensei em bater, desisti. Estacionei o carro um pouco mais a frente, para não assustar ninguém.

Caminhei pela estrada, velha conhecida, e cheguei até às margens do riacho. Sentei-me na pedra que costumava ficar quando criança. Procurei sentir todo o ambiente: o ruído das águas na pequena cascata mais adiante, o som dos pássaros noturnos, a doce brisa que soprava e movimentava as folhas das árvores. O luar, refletido nas águas parecia energizar o local e a mim também. Respirei fundo e olhei em direção ao céu. Por alguns instantes tentei localizar cada estrela, cada planeta no firmamento. Fazia muito tempo que eu não as admirava como agora.

Voltei para o carro. Liguei o rádio numa emissora local. Naquele horário começava uma sessão nostalgia e as músicas remetiam a minha juventude. Abri o teto de visão panorâmica do carro, reclinei o banco e continuei admirando os astros no céu. A doce melodia, a paisagem e o cansaço me fizeram dormir. Quando acordei, o rádio estava desligado. Tentei a partida no carro sem sucesso. Fiquei sem bateria. Sem opção, passei o resto da noite ali.

Acordei-me com o som de um pica-pau batendo seu bico na madeira de uma árvore próxima. À minha volta uma leve névoa cobria o local. À direita duas grandes araucárias faziam sombra ao Sol que estava nascendo. Seus raios a penetravam, criando uma imagem fantástica na projeção entre os galhos. Sai do carro e alonguei-me. Eu precisava de ajuda. Fui em direção a Ribeirão Grande.

Quando dei os primeiros passos, avistei uma senhora, de cabelos presos, corpo magro e ereto, caminhava com um cachorro ao seu lado. Cantarolava, saudando o dia que nascia. Cessou a cantoria quando percebeu a minha presença. Trouxe o cachorro para mais próximo de si e seguiu em frente com passos firmes.

- Bom dia! Está precisando de ajuda?
- Bom dia. Sim, fiquei sem bateria.
- Pelas placas do carro, o senhor não é daqui.
- O carro não é. Eu posso dizer que meu coração é mais daqui do que de qualquer outro lugar, mas já faz algum tempo que não apareço. – disse eu retirando os óculos escuros.
- Estes olhos, eu os reconheceria em qualquer tempo. Você é o Juquinha, melhor o José Carlos?
- Sim, sou eu. E você é... Não poder ser, ela seria mais velha.
- Laura.
- O tempo não passou para você!
- Passou, e como passou. O que faz por aqui?
- Cheguei ontem à noite, fui até o riacho. Meu carro acabou ficando sem bateria.
- Ao riacho? À noite?
- A lua estava linda e o céu tão limpo. Não resisti e tive que o ver novamente.
- Estou indo até lá, tomar um banho na cascata. Vamos?
- Com esse friozinho?
- Acho que você está ficando velho. Cansávamos de tomar banho lá, em qualquer época do ano. Não se preocupe, na volta você toma um café bem quente, comigo.
- Está bem. Espere um momento que vou apanhar algo na mala.

No curto caminho até a cascata começamos uma tímida conversa. Ela entrou na água logo que chegou e o cão a acompanhou. Eu fui experimentando aos poucos a água fria, até criar coragem e mergulhar de vez.

Brincamos feito crianças. A água pareceu limpar todo o meu cansaço, repôs minhas energias. Ela se secou, me emprestou a toalha. O sol já começava a aquecer a manhã e a minha pele. Voltei de pé no chão. Senti os espinhos das grimpas de pinheiro e das rosetas que nasciam em meio a grama da beira da estrada. Reclamei um pouco pela dor e ela somente sorria. Apanhei algumas roupas e segui com ela em direção ao sítio.

O caminho a partir da porteira era ladeado por jardins muito bem cuidados. Lembravam o jardim da casa dela, só que muito maiores. Havia muitas rosas. Ela conseguira o espaço que desejava. Sua mãe dizia que rosas precisavam de espaço para espalhar o seu perfume e era isto que eu sentia aqui.

Tomei uma ducha e depois da roupa trocada, fui até a cozinha onde o fogão a lenha aquecia o ambiente e um café, que acabara de ser passado. Ela serviu um pão caseiro, acompanhado por algumas geleias e doces.

- Puxa, que doce gostoso!
- As laranjas são do nosso pomar. Todas as geleias também. Nessa época do ano não temos tantas frutas assim, estamos na florada, o que deixa tudo muito lindo. Mas podemos provar os morangos, estão uma delícia.
- Mal posso esperar. Você mora sozinha aqui?
- Eu, o Rex, meu cachorro, a Diná, a moça que me ajuda com a casa e alguns empregados que cuidam das plantações e da estrutura do sítio.
- Não se sente só?
- Não há nada melhor do que viver junto a natureza. A comodidade da cidade também está aqui. É possível conciliar tudo, o moderno, o tecnológico e o natural.
- Não é à toa que você sempre esteve à frente de toda a turma com seus pensamentos, seus ideais.
- Mas todos fazemos escolhas erradas também. Você lembra que um dos meus sonhos sempre foi ter uma família, filhos?
- Sim, já havia escolhido até os nomes das crianças.
- Pois acabei sozinha. Meu marido não podia gerar filhos, não aceitou uma adoção e depois, sem mais nem menos, desapareceu.
- Sinto muito.
- E você, teve filhos?
- Sim, um casal.
- Quais são os nomes?
- Luís e Laura.
- Laura?
- Sim, você sempre foi uma boa lembrança.
- Sua esposa não veio com você?
- Não, não tenho mais uma esposa. Acho que por isso voltei. Quando casado ela não gostava muito quando eu falava do meu passado ou dos meus amigos de infância e juventude. Assim, para evitar desgastes, não voltei antes.
- Então, que tal passar o dia comigo, conhecer um pouco da propriedade? Sei que a conhecia quando mais jovem, mas fiz algumas mudanças por aqui. Também comprei o terreno vizinho.
- Claro. Não tenho compromissos, a não ser o de rever velhos amigos. O terreno que comprou é aquele que tem a colina onde se enxerga a cidade?
- Este mesmo. O antigo proprietário não permitia a entrada e subíamos até lá escondidos.
- Sim, até o dia em que o Bruno rolou morro abaixo e acabou parando nos pés do Seu Belchior, o dono das terras.
- Foi nesse dia que ele se transformou num fundista. Teria ganho uma medalha pela velocidade com que fugiu. – comentou Laura.
- Acho que não dou mais conta de subir até lá.
- Vamos a cavalo. Depois descemos e caminhamos um pouco também.

A manhã passou muito rapidamente. Colhemos algumas coisas na horta, escolhemos um frango para o almoço e ajudamos Diná a preparar tudo.

Depois esticamos duas redes à sombra de árvores. Conversamos um bocado. Laura me mostrava o quanto tudo na natureza era belo, tudo o que eu já sabia, um bocado aprendido com ela, na infância, mas havia esquecido.

Acabei adormecendo. Acordei com Laura me oferecendo um café, que trouxe numa garrafa térmica. O sorriso dela continuava lindo.

- Vamos até a cidade?
- Vamos. Me senti tão confortável aqui que esqueci o me propósito. Espere! O meu carro, esqueci completamente dele.
- Ele já está aqui. Pedi a um empregado que carregasse a bateria.
- Obrigado. Minha cabeça já não ajuda mais.

No restante da tarde passeamos pela cidade, tomamos chimarrão na praça. Encontrei pessoas que não reconhecia mais, também não reconheci alguns. Outros, parecia que os havia visto ontem e as conversas fluíram com naturalidade. Muitos de quem me lembrava, já não estavam mais neste mundo. A cidade estava bem conservada, com muito verde. Eles sim, os habitantes daqui, sabem o que é viver.

A noite chegou, e com ela mais uma bela lua. Sentados no banco em frente a rodoviária passamos a admirá-la. Lembrei que eu precisava de um quarto de hotel.

- Sabe, querida, o dia foi perfeito. Não imagina como me sinto feliz!
- Para mim também foi ótimo. Eu sempre me perguntava por onde você andaria. Você também sempre foi uma boa lembrança.
- Que bom! Sempre pensei que lembrasse de mim como o destruidor de rosas.
- Lembro disso também, mas as boas recordações sempre foram maiores. – me disse ela com um sorriso largo.
- Preciso procurar um hotel. Já está ficando tarde.
Ela baixou os olhos por alguns instantes, voltou-se para a Lua, depois para mim e disse:
- Gostaria que você considerasse passar a noite no meu sítio. Tem quartos sobrando e há algumas fotografias que gostaria de lhe mostrar.
- Será que ficaria bem um homem na sua casa?
- Acho que isso não é algo com que devamos ficar preocupados. Somos crescidinhos.
- Então, se não for incomodo, aceito.
O jantar foi acompanhado de um vinho colonial, produzido com uvas de um parreiral do próprio sítio. Acabou nos deixando mais leves. Fizemos um fogo na lareira e preparamos um local no chão da sala, onde Laura espalhou vários álbuns de fotografia.
- Veja esta aqui, é da formatura da quarta série, mostrou-me ela uma fotografia em preto e branco, amarelada e com recorte picotado.
- Quase não me reconheço nela.
- Lembra do Ricardo, este aqui, magrinho, miudinho?
- Claro, ele não me dava folga nas provas, pedindo cola!
- Ele é o atual prefeito. Já o foi por outras três vezes.
- Quem diria, ele sempre foi tímido.
- Casou-se com a Letícia, essa aqui de tranças. Ela deu um jeito na timidez dele.
- Ela sempre foi falante, desinibida. O que faz a convivência!
- Como teríamos sido nós dois juntos? – perguntou-me ela com o rosto rubro.

Me vieram à mente todos os meus sonhos de adolescente, quando me imaginava ao lado de Laurinha. Tremi. Não pude olhar nos olhos dela. Nunca pensei que ela sequer pudesse ter cogitado ficar ao meu lado.
- Não queria deixá-lo sem jeito, querido.
- Me desculpe...

Não pude completar a frase, ela beijou-me com toda a delicadeza desse mundo. Passamos a noite ali, na sala mesmo.

Acordei com o cantar do galo. Não percebi quando ela levantou para apanhar alguns cobertores. Diná passou discretamente pela sala, em direção a cozinha. Ao meu lado, Laura ainda dormia, com um sorriso no rosto. Levantei e olhei pela janela. Uma leve chuva se iniciava e pude sentir o cheiro da poeira molhada.

Ela acordou, levantou e me abraçou longamente. Tomamos um café, quase que em silêncio. Em nossos olhares a vontade de ficar, de eternizar aquele momento.

Peguei minhas coisas, despedi-me dela, com um misto de tristeza e felicidade no olhar. Dei os primeiros passos e voltei-me em direção à casa. Na varanda, de braços cruzados, ela permanecia imóvel. O sol surgia por entre as nuvens e um belo arco-íris estampava a paisagem ao fundo. Acenei e parti.

Laura era tão especial quanto eu lembrava, doce, exuberante como a própria natureza. Faltavam alguns quilômetros para o acesso à autoestrada. Eram poucos minutos para uma tomada de decisão e quem sabe afastar os fantasmas que assombravam a minha vida. Parei. Na beira da estrada, o tronco de uma velha árvore cortada brotava novamente, sinal de que sempre pode haver um recomeço.

Decidi voltar. Improvisei um retorno ali mesmo. Não me dei conta da curva acentuada. Surgiu um caminhão carregado com toras de madeira. Não havia nada a fazer, a não ser esperar pelo impacto. Uma última lembrança: o sorriso de Laura.

Conto publicado na antologia Entrelaçados da Editora Perse, editada em maio de 2017.

Adnelson Campos
20/06/2017

 

 

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